Uma breve história da Linotipo

A Linotipo é um equipamento de composição mecânica que compreende quatro partes fundamentais: os magazines, ou depósitos de matrizes; o teclado, o mecanismo de fundição e o mecanismo de distribuição das matrizes. Basicamente, a sua operação consiste em: reunir as matrizes em uma linha de texto; espaçá-la automaticamente a fim de alcançar a medida predefinida; posicionar a linha composta no mecanismo de fundição; transferir a imagem dos caracteres das matrizes para uma barra de metal; e, por fim, devolver as matrizes às suas posições originais nos magazines, para nova utilização.



Os primeiros experimentos com a composição mecânica de textos ocorreram a partir da década de 1820, mas a engenhosa e complexa invenção de Ottmar Mergenthaler, em 1886, foi a primeira a obter êxito comercial. Graças à sua praticidade e qualidade técnica, conseguiu se impor ao mercado tipográfico, especialmente para a produção de jornais e livros.

A segunda metade do século XIX assistiu a uma sucessão de inventos, com a crescente busca pela mecanização e aumento da produtividade, em pesquisas com materiais e processos que desembocavam necessariamente no empreendedorismo. A Linotipo é considerada uma das mais importantes contribuições para o avanço das artes gráficas desde o surgimento dos tipos móveis, desenvolvidos por Gutenberg há quase 560 anos. O inventor, cientista e empresário norte-americano Thomas Edison qualificou a Linotipo como “a oitava maravilha do mundo”.

O relojoeiro alemão Ottmar Mergenthaler (1859-1899) emigrou para os EUA em 1872 e o seu primeiro emprego foi em uma loja de instrumentos científicos, na cidade de Washington. Uma das atividades ali desenvolvidas era a confecção de protótipos para as invenções dos clientes, para atender a uma exigência do departamento de patentes norte-americano. Mergenthaler logo se destacou nessa função.

Em 1883, ele foi encarregado de desenvolver o protótipo de uma máquina de escrever, que compunha linhas de texto com tinta litográfica em tiras de papel para serem transferidas diretamente para a pedra litográfica. O projeto se mostrou problemático e foi solicitado a Mergenthaler uma outra solução. Ele começou a trabalhar em um novo projeto, batizado como Rotary Matrix Machine, que utilizava punções para gravar letras em baixo-relevo sobre fitas de cartão umedecido (papier-mâché), que serviriam como matrizes para estereotipia.



Esse projeto também não chegou a resultados satisfatórios, mas gerou o conceito de produzir linhas de texto inteiras. Finalmente, o projeto foi abandonado e Mergenthaler iniciou suas próprias pesquisas, em um caminho diverso.

Em 1885, ele finalizou a construção de um equipamento que utilizava barras metálicas com matrizes do alfabeto completo, em baixo-relevo, e produzia linhas de texto fundidas em metal. Esse equipamento ficou conhecido como Band Machine.

Enquanto os equipamentos de composição mecânica inventados até então produziam linhas com tipos já fundidos, sua invenção combinava a composição de textos com a fundição de tipos – por meio de matrizes de metal – em uma única operação.

Logo ele intuiu que poderia agilizar o processo de composição utilizando matrizes de metal separadas, cada uma com um único caractere. Assim, no mesmo ano, ele iniciou a construção de um novo modelo, que realizava as operações de composição, fundição e distribuição de uma maneira bastante veloz (era possível compor uma linha enquanto outra estava sendo fundida e uma terceira estava sendo distribuída).

Mergenthaler afirmou, em uma palestra naquele período: “A não ser que seja inventado algum sistema de impressão, no qual os tipos não sejam necessários, estou convencido de que o método empregado em nossa invenção será dominante no futuro, não apenas por ser econômico, mas principalmente por sua qualidade superior”.

 



O início da produção
Esse equipamento recebeu o apelido de “blower” (ventilador ou ventoinha) por causa do jato de ar comprimido que conduzia as matrizes pelos canais que as levavam para o reunidor. A Blower Linotype foi colocada em funcionamento pela primeira vez em 3 de julho de 1886, no jornal New York Tribune. O nome Linotype é derivado da expressão line-of-type, cunhada por Whitelaw Reid, editor do jornal, durante a apresentação do equipamento.

Além de compor as páginas do diário novaiorquino, a Blower foi utilizada pela empresa para compor o primeiro livro em linotipo, o The Tribune Book of Open-Air Sports, em 1887. Mais de 200 Blowers foram produzidas, sendo que 10 delas foram vendidas para a Inglaterra.

Ottmar Mergenthaler dedicou-se, então, a aperfeiçoar a Blower. Assim, em 1890, chegou ao mercado a Linotype Model 1 Square Base, com mudanças importantes. Além de solucionar definitivamente o sistema de distribuição de matrizes, ele eliminou o sistema de ar comprimido: no novo modelo, as matrizes desciam em direção ao reunidor pela ação da gravidade, acondicionadas em um novo magazine, colocado em posição elevada, na parte frontal do equipamento.




Foram produzidas 360 Linotipe Square Base, mas poucas sobreviveram. Uma delas encontra-se no International Museum of Printing, em Carson, na California.
Em 1892 surgiu a Simplex Linotype Model 1,e já no ano seguinte fez sucesso na Feira Mundial de Chicago. Foi também a primeira a usar matrizes com dois caracteres.
Na extensa lista de equipamentos produzidos pela Linotype Company, em constante renovação, sempre buscando aumentar a eficiência operacional e os recursos técnicos, encontramos os seguintes modelos: Linotype Square Base, modelos 1 (Simplex), 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8 (magazine simples e magazine duplo), 9, 10, 11, 12, 14 (com magazine simples e magazine duplo), 14 (com três magazines laterais), 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 24, 25, 26 e 26 (com três magazines laterais), 27, 28, 29, 30, 31, 32, 33, 34, 35 e 36.


Foram produzidos também, os modelos K, L, M, Ideal, Special, Comet, Junior Linotype, Lead and Rule Caster, Elektron,Elektron II, Elektron Mixer e Elektron Ace, All-Purpose Linotype,  modelo 13 (Alemanha) e os modelos 48 e 50 (Inglaterra). Os modelos 6, 7, 11 e 12 eram idênticos aos modelos 4, 5, 8 e 9, respectivamente, com a diferença que os primeiros fundiam linhas mais largas.




A Linotype Model 3, de 1898, trouxe novos recursos: fundia linhas com tamanhos até corpo 14 e possuia dois magazines para uso simultâneo, por intermédio de uma chave no teclado. Também foi aperfeiçoado o uso das matrizes com duas letras, permitindo combinar as variações regular, com a bold, italic ou versalete em uma mesma linha.

A Elektron, lançada em 1964, foi a última, mais avançada, mais rápida e mais produtiva máquina de composição a quente lançada pela Linotype Company. Produzia até 15 linhas de jornal por minuto, sendo operada por fita de papel codificada, com a opção de funcionamento manual. Foi idealizada para proporcionar todas as facilidades de operação, com aumento sensível de produtividade.

Entre os aperfeiçoamentos, estão o teclado com teclas de pressão, sensíveis ao toque; o disparo das linhas para fundição, antes feito por meio de uma alavanca, passou a ser feito por um botão de pressão; incorporação de sistemas hidráulicos, tanto na movimentação dos magazines quanto na justificação das linhas, garantindo um funcionamento silencioso e suave, mesmo em altas velocidades; um sistema de reunião contínua de matrizes eliminou o movimento do componedor e a consequente interrupção da digitação. Antes, nessa operação, o linotipista era obrigado a aguardar o despacho das linhas para retomar a digitação do texto.




Etaoin Shrdlu
Em 2012, foi lançado um documentário de 72 minutos, celebrando a trajetória da Linotipo, dirigido e produzido por Doug Wilson (www.linotypefilm.com). No filme podemos ver diversas Linotipos ainda operacionais, funcionando da mesma maneira que fizeram por mais de cem anos, em pequenas gráficas ou em museus, por todo o mundo. Em algumas passagens, o aspecto emocional é evidenciado, revelando a estreita ligação dos profissionais com esse equipamento centenário.


Uma dessas passagens marcantes é a reprodução de um trecho do antigo documentário Farewell, Etaoin Shrdlu, dirigido por Carl Schlesinger, que registrou a noite da última edição do jornal The New York Times no sistema tipográfico de impressão, composto em linotipo, no dia 2 de julho de 1978.



O estranho título se refere a uma antiga praxe: quando um linotipista cometia um erro de digitação, ao invés de substituir manualmente as matrizes erradas, a solução mais rápida era fundir a linha com problema e compô-la novamente. E, como uma linha só podia ser fundida depois de completa, o modo mais rápido de finalizá-la era correr o dedo sobre o teclado, digitando a sequência de teclas. Dessa maneira, era composta a sequência “etaoin shrdlu”, que corresponde às duas colunas verticais à esquerda, no teclado.

A presença da expressão etaoin shrdlu tornou-se um “código” para assinalar ao revisor que a linha deveria ser descartada na montagem da fôrma tipográfica.
Ocasionalmente, uma linha com a sequência etaoin escapava à revisão e era impressa inadvertidamente. A sequência completa do teclado – etaoin shrdlu cmfgyp wbvkxj qz – era usada para testar o equipamento, sendo considerada uma linha de teste e, portanto, também não deveria ser impressa...






O equívoco ocorria com certa frequência e a expressão acabou sendo incorporada ao Oxford English Dictionary e ao Webster's Unabridged Dictionary.

Obras consultadas
History of Composing Machines - A Complete Record of the Art of Composing Type by Machinery, John S. Thompson, 1904.
O Manual Oficial da Linotype, Mergenthaler Linotype Company, traduzido e editado pela Linotypo do Brasil S.A., 1940.

Intellectual Property Law for Engineers and Scientists,  Howard B. Rockman, 2004.




Fonte - http://www.revistatecnologiagrafica.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=4231:uma-breve-historia-da-linotipo&catid=68:materias-especiais&Itemid=188

Uma breve história da Linotipo Uma breve história da Linotipo Reviewed by Alexandre Maurício on 01:33:00 Rating: 5
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